Era tarde de fevereiro de 2026. O piar dos pássaros e correntezas de água produzidos por um sistema de som tornaram-se imperceptíveis após a chegada de Ana Dalva Cordenonsi, de 78 anos, na biblioteca de um dos maiores clubes de lazer e esportes do Brasil. Leitora assídua, ela visita o local a cada quinze dias para retirar e devolver os livros que pega emprestado.
Frequenta o lugar desde abril de 2023 e já leu mais de 150 obras, quase que um livro por semana. O primeiro livro que pegou foi O fio do destino, de Zíbia Gasparetto, que conta história de uma das encarnações de Lucius e sua jornada marcada por escolhas, perdas e aprendizado.
Na biblioteca do clube, há uma seção que separa os livros mais lidos, ou os mais bem avaliados pelos associados. “A maioria dos que tem ali eu já li, né, Solanginha?”, pergunta Ana à bibliotecária Solange da Silva, de 54 anos, que responsável pelo gerenciamento do lugar desde novembro de 2022. “Ela é uma leitora voraz, não sei como é que arruma tempo”, sussurra a bibliotecária para mim.
A seção dos “melhores livros” é organizada por Solange “horalmente”, ou “a cada hora”, como ela mesma define enquanto. Quando visitei a biblioteca, obras como O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, de Olavo de Carvalho, Um gato de rua chamao Bob, de James Bowen e o romance A cor púpura, de Alice Walker, estavam na curadoria do dia.
Solange leva o seu ofício a sério. Gosta de silêncio e de ordem, ainda mais quando, segundo ela, crianças tentam entrar na biblioteca com as roupas molhadas após um banho na piscina do clube. Enfurnada quase sete horas por dia em meio a cerca de 11 mil livros, ela diz que “não tem tempo para ler” e não assiste noticiários na tevê, apenas desenhos animados. Além da curadoria literária, Solange tem o costume de ambientalizar o lugar com sons de meditação, os quais ela acredita facilitarem a leitura e concentração.
Com a tranquilidade desmanchada pela chegada de Ana, Solange, sem perder tempo, pergunta à leitora sobre o que ela achou do livro que acabou de devolver. “Em, você gostou desse aqui?”, perguntou Solange com o livro Toda a verdade, de David Baldacci, na mão. Em uma resposta sincera, Ana respondeu: “Bah, guria, não parava de ler.”
Em seu interrogatório tradicional para saber se um livro é digno da seção dos mais bem avaliados, Solange questionou sobre a temática do romance. Empolgada, a leitora voraz respondeu: “Tu sabe que as guerras, muitas vezes, são provocadas por interesses escusos e começou por aí.” A obra conta a história de um agente secreto que tem a vontade de viver uma vida mais tranquila, mas acaba imerso em uma aventura para impedir um conflito mundial. No entanto, Ana ainda alertou: “mas olha, o livro é pesado, viu!” Discretamente, Solange sorriu e logo posicionou o livro junto às outras 25 obras da seção especial.
A ansiedade de Ana pela leitura a faz se sentir “louca para que chegasse a noite para continuar”. Com o hábito de ler antes de pegar no sono, recentemente, Ana começou a ter pesadelos frequentes e passou a ter palpitações. Ela contou que tem lido “muita porcaria”. “Eu tô lendo muita coisa do mal, sabe”, diz ela sem definir a palavra “mal”, apesar da minha insistência.
A leitora, então, consultou seu cardiologista, que a aconselhou a buscar por leituras “mais legais”. Ele indicou o Médico de homens e de almas, de Taylor Cadwell, que retrata a vida do apóstolo São Lucas. “Eu recém tô no início, tem mais de 650 páginas”, acrescenta. Mas não é toda obra literária que lhe agrada. Uma vez, Ana comprou um livro da autora Clarice Lispector, o qual não soube nomear, e não gostou. “Eu lia aquela mulher e achei ela meio deprimida, aí eu emprestei para minha neta, a Florzinha”.
Professora de geografia aposentada desde 2001, Ana lecionou da pré-escola até a quinta série em uma instituição pública no Rio Grande do Sul. Quando jovem, ouvia que as meninas deveriam ser professoras e os meninos poderiam ser o que quisessem, até “vagabundos”, relembra ao gargalhar. Hoje, após anos se dedicando ao trabalho e a família, ela encontra refúgio na leitura, ainda mais quando se trata da saúde do marido, que convive com as dores da artrite e da artrose. “Eu deito ali na cama, começo a ler e eu esqueço da vida e dos problemas. O que eu posso resolver, eu resolvo e não vou deixar encher a cabeça dele de preocupação”, conta a professora.
Perto do final da tarde, Ana percebe que passou da hora. “Querida, eu estou atrasadíssima. Tenho que passar no mercado. Se eu chegar mais tarde, não vai ter mais nada de bom pra comer”, diz espantada. Ela então levanta da poltrona onde fez casa e corre até a seção dos livros mais bem avaliados em busca de uma nova história. Não deu outra, a leitora passou livro por livro apontando àqueles que já havia destrinchado de ponta a ponta. Em sua busca, Ana entrou em um embate com Solange para saber se ela já havia lido ou não O último papa, de Luís Miguel Rocha. “Querida, essa aqui eu já li, né?”, pergunta Ana. “Esse não”, responde Solange. Indagada, a leitora diz, em tom humorístico: “Claro que li, tu que tá louca”. A busca continuou.
Conhecidas há tempos, Solange e Ana, ambas de cabelos orgulhosamente volumosos e brancos, se conheceram há cerca de 10 anos. Na época, a bibliotecária trabalhava como auxiliar na escola onde Florzinha, a neta de Ana, estudava quando criança. Solange tinha contato direto com os familiares pois era responsável por “devolver as crianças aos pais no final do dia”. Após sua primeira visita na biblioteca do clube santamariense, em 2023, Ana reencontrou a amiga. “Hoje ela vem e não quer mais ir embora. Aqui parece um consultório psicológico”, compartilha Solange.
Vendo que estava alongando seu tempo na biblioteca mais uma vez, Ana desistiu de buscar por um novo livro. Me atrevi a sugerir. Fui até a seção de literatura internacional e peguei o primeiro volume de O clube do crime das quintas-feiras, de Richard Osman, uma comédia dramática que envolve um grupo de idosos que resolvem mistérios de assassinato. “Acho que a senhora pode gostar, eu ri bastando lendo esse”, eu disse enquanto comentava brevemente a sinopse do livro. “Eu acho que não li esse daí. Depois, se a gente se encontrar, vou te dizer se tu me deu uma fria ou se tu me deu uma dentro”, responde Ana.
Após registrar o novo empréstimo, a leitora se despediu rapidamente da amiga, que atendia outros associados, e saiu porta afora. Na expectativa da próxima visita, Solange diz: “Dá quinze dias certinho, e ela volta”. ⊛
Era tarde de fevereiro de 2026. O piar dos pássaros e correntezas de água produzidos por um sistema de som tornaram-se imperceptíveis após a chegada de Ana Dalva Cordenonsi, de 78 anos, na biblioteca de um dos maiores clubes de lazer e esportes do Brasil. Leitora assídua, ela visita o local a cada quinze dias para retirar e devolver os livros que pega emprestado.
Frequenta o lugar desde abril de 2023 e já leu mais de 150 obras, quase que um livro por semana. O primeiro livro que pegou foi O fio do destino, de Zíbia Gasparetto, que conta história de uma das encarnações de Lucius e sua jornada marcada por escolhas, perdas e aprendizado.
Na biblioteca do clube, há uma seção que separa os livros mais lidos, ou os mais bem avaliados pelos associados. “A maioria dos que tem ali eu já li, né, Solanginha?”, pergunta Ana à bibliotecária Solange da Silva, de 54 anos, que responsável pelo gerenciamento do lugar desde novembro de 2022. “Ela é uma leitora voraz, não sei como é que arruma tempo”, sussurra a bibliotecária para mim.
A seção dos “melhores livros” é organizada por Solange “horalmente”, ou “a cada hora”, como ela mesma define enquanto. Quando visitei a biblioteca, obras como O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, de Olavo de Carvalho, Um gato de rua chamao Bob, de James Bowen e o romance A cor púpura, de Alice Walker, estavam na curadoria do dia.
Solange leva o seu ofício a sério. Gosta de silêncio e de ordem, ainda mais quando, segundo ela, crianças tentam entrar na biblioteca com as roupas molhadas após um banho na piscina do clube. Enfurnada quase sete horas por dia em meio a cerca de 11 mil livros, ela diz que “não tem tempo para ler” e não assiste noticiários na tevê, apenas desenhos animados. Além da curadoria literária, Solange tem o costume de ambientalizar o lugar com sons de meditação, os quais ela acredita facilitarem a leitura e concentração.
Com a tranquilidade desmanchada pela chegada de Ana, Solange, sem perder tempo, pergunta à leitora sobre o que ela achou do livro que acabou de devolver. “Em, você gostou desse aqui?”, perguntou Solange com o livro Toda a verdade, de David Baldacci, na mão. Em uma resposta sincera, Ana respondeu: “Bah, guria, não parava de ler.”
Em seu interrogatório tradicional para saber se um livro é digno da seção dos mais bem avaliados, Solange questionou sobre a temática do romance. Empolgada, a leitora voraz respondeu: “Tu sabe que as guerras, muitas vezes, são provocadas por interesses escusos e começou por aí.” A obra conta a história de um agente secreto que tem a vontade de viver uma vida mais tranquila, mas acaba imerso em uma aventura para impedir um conflito mundial. No entanto, Ana ainda alertou: “mas olha, o livro é pesado, viu!” Discretamente, Solange sorriu e logo posicionou o livro junto às outras 25 obras da seção especial.
A ansiedade de Ana pela leitura a faz se sentir “louca para que chegasse a noite para continuar”. Com o hábito de ler antes de pegar no sono, recentemente, Ana começou a ter pesadelos frequentes e passou a ter palpitações. Ela contou que tem lido “muita porcaria”. “Eu tô lendo muita coisa do mal, sabe”, diz ela sem definir a palavra “mal”, apesar da minha insistência.
A leitora, então, consultou seu cardiologista, que a aconselhou a buscar por leituras “mais legais”. Ele indicou o Médico de homens e de almas, de Taylor Cadwell, que retrata a vida do apóstolo São Lucas. “Eu recém tô no início, tem mais de 650 páginas”, acrescenta. Mas não é toda obra literária que lhe agrada. Uma vez, Ana comprou um livro da autora Clarice Lispector, o qual não soube nomear, e não gostou. “Eu lia aquela mulher e achei ela meio deprimida, aí eu emprestei para minha neta, a Florzinha”.
Professora de geografia aposentada desde 2001, Ana lecionou da pré-escola até a quinta série em uma instituição pública no Rio Grande do Sul. Quando jovem, ouvia que as meninas deveriam ser professoras e os meninos poderiam ser o que quisessem, até “vagabundos”, relembra ao gargalhar. Hoje, após anos se dedicando ao trabalho e a família, ela encontra refúgio na leitura, ainda mais quando se trata da saúde do marido, que convive com as dores da artrite e da artrose. “Eu deito ali na cama, começo a ler e eu esqueço da vida e dos problemas. O que eu posso resolver, eu resolvo e não vou deixar encher a cabeça dele de preocupação”, conta a professora.
Perto do final da tarde, Ana percebe que passou da hora. “Querida, eu estou atrasadíssima. Tenho que passar no mercado. Se eu chegar mais tarde, não vai ter mais nada de bom pra comer”, diz espantada. Ela então levanta da poltrona onde fez casa e corre até a seção dos livros mais bem avaliados em busca de uma nova história. Não deu outra, a leitora passou livro por livro apontando àqueles que já havia destrinchado de ponta a ponta. Em sua busca, Ana entrou em um embate com Solange para saber se ela já havia lido ou não O último papa, de Luís Miguel Rocha. “Querida, essa aqui eu já li, né?”, pergunta Ana. “Esse não”, responde Solange. Indagada, a leitora diz, em tom humorístico: “Claro que li, tu que tá louca”. A busca continuou.
Conhecidas há tempos, Solange e Ana, ambas de cabelos orgulhosamente volumosos e brancos, se conheceram há cerca de 10 anos. Na época, a bibliotecária trabalhava como auxiliar na escola onde Florzinha, a neta de Ana, estudava quando criança. Solange tinha contato direto com os familiares pois era responsável por “devolver as crianças aos pais no final do dia”. Após sua primeira visita na biblioteca do clube santamariense, em 2023, Ana reencontrou a amiga. “Hoje ela vem e não quer mais ir embora. Aqui parece um consultório psicológico”, compartilha Solange.
Vendo que estava alongando seu tempo na biblioteca mais uma vez, Ana desistiu de buscar por um novo livro. Me atrevi a sugerir. Fui até a seção de literatura internacional e peguei o primeiro volume de O clube do crime das quintas-feiras, de Richard Osman, uma comédia dramática que envolve um grupo de idosos que resolvem mistérios de assassinato. “Acho que a senhora pode gostar, eu ri bastando lendo esse”, eu disse enquanto comentava brevemente a sinopse do livro. “Eu acho que não li esse daí. Depois, se a gente se encontrar, vou te dizer se tu me deu uma fria ou se tu me deu uma dentro”, responde Ana.
Após registrar o novo empréstimo, a leitora se despediu rapidamente da amiga, que atendia outros associados, e saiu porta afora. Na expectativa da próxima visita, Solange diz: “Dá quinze dias certinho, e ela volta”. ⊛