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Era manhã de verão. O ano deveria ser algo entre 2013 e 2014. Cedo, eu e meu primo fomos acordados às pressas. Descobrimos um compromisso surpresa: era dia de vacinação no postinho perto de casa. Apesar de não lembrar qual era a vacina, recordo que minha preocupação se dividia em duas vertentes: “Será que verei o Zé Gotinha?” e “Será que vai ser agulha ou gotinha?” Não contaram ao meu primo que iríamos nos vacinar. Ele tinha entre quatro e cinco anos, e eu, dez ou onze. O caminho até o postinho foi curto: saímos de carro em direção a uma rodovia próxima, atravessamos e, depois de dois minutos, estávamos esperando na fila, assim como dezenas de outras famílias. Minha mãe sempre se orgulhou da minha carteira de vacinação. Quando esse assunto surgia nas rodas de conversa, ela dizia: “Ele tomou todas”. De fato, nunca me faltaram vacinas naquela época. Tomei as vacinas BCG, hepatite B, pentavalente, poliomielite, pneumocócica, meningocócica C, tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), tetra viral, DTP, hepatite A e HPV...


Quase todo mundo que frequenta a casa dos avós desde que se conhece por gente, guarda algo que, uma vez ou outra, repara minuciosamente. No meu caso, algo que sempre me chamou a atenção era a grande quantidade de pinturas espalhadas pela casa. Mas não se engane, não são obras da Tarsila, Portinari ou Cavalcanti. Muitas delas são assinadas pela minha avó, Eleda, que escreve o nome junto ao ano que pintou os quadros, quase todos datam do início dos anos 2000. A casa onde estão é grande. Fica na praia do Laranjal, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Atualmente, quem mora lá é meu pai, Antônio. Minha avó morou fixamente naquela casa até as enchentes que assolaram o estado em 2024. Com as chuvas, o bairro do Laranjal foi um dos mais afetados em Pelotas. Na época, minha tia, Fernanda, morava com ela. As duas passaram a viver juntas desde a morte do meu avô, também chamado Antônio, em 2020. Por conta do medo de que uma nova enxurrada viesse, as duas se mudaram para um apartamento na parte metropolitana da cidade...⊛

Logo cedo, uma notificação apareceu no celular. Entre o estágio, TCC e as mil tarefas que se acumulam na vida de um graduando, quase que o aviso passou batido. Por sorte, quando o jovem observou, não teve como desviar o olhar. Era o lançamento do novo álbum de Rosalía, o Lux. As pressas para sair de casa rumo à faculdade, o estudante pegou seus fones com fio, os únicos com entrada compatível de seu IPhone 14, mas, por conta da rotina, não conseguiu ouvir o álbum. Precisou conter a ansiedade até à noite. Havia jantado na casa dos avós do namorado e, depois que voltou para casa, montou a atmosfera que ele achava perfeita. Acendeu o abajur, de luz amarela, e ambos deram play. Fã da cantora, o jovem já conhecia o trabalho da artista espanhola. A cantora e multi-instrumentista deu o pontapé inicial de sua carreira com o álbum de regravações Los Ángeles (2017), mas foi no ano seguinte que alcançou a aclamação mundial com seu belíssimo El Mal Querer... ⊛

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