Nascimento e morte

Nascimento e morte

Uma incursão no novo álbum de Rosalía

2–4 minutos

Nascimento e morte

Uma incursão no novo álbum de Rosalía

2–4 minutos

Logo cedo, uma notificação apareceu no celular. Entre o estágio, TCC e as mil tarefas que se acumulam na vida de um graduando, quase que o aviso passou batido. Por sorte, quando o jovem observou, não teve como desviar o olhar. Era o lançamento do novo álbum de Rosalía, o Lux.

As pressas para sair de casa rumo à faculdade, o estudante pegou seus fones com fio, os únicos com entrada compatível de seu IPhone 14, mas, por conta da rotina, não conseguiu ouvir o álbum. Precisou conter a ansiedade até à noite. Havia jantado na casa dos avós do namorado e, depois que voltou para casa, montou a atmosfera que ele achava perfeita.

Acendeu o abajur, de luz amarela, e ambos deram play. Fã da cantora, o jovem já conhecia o trabalho da artista espanhola. A cantora e multi-instrumentista deu o pontapé inicial de sua carreira com o álbum de regravações Los Ángeles (2017), mas foi no ano seguinte que alcançou a aclamação mundial com seu belíssimo El Mal Querer, fruto de seu trabalho de conclusão de curso.

Naquela época, ela já indicava que não estava disposta a seguir o fluxo: adaptou os 12 capítulos do livro Flamenca para um disco que soava como outra coisa dentro do pop latino, então saturado de fórmulas e repetições. Foi, de certa forma, um respiro.

Sentados no sofá, em frente à televisão, o casal encarou por 49 minutos Rosalía vestida como uma santa, presa em algo que lembra uma camisa de força. Em algum momento, me ocorreu um pensamento simples, quase incômodo: este disco exige de nós algo que já não sabemos oferecer com facilidade. Tempo e atenção.

Longe dos vídeos curtos do TikTok e das músicas que parecem cada vez mais parecidas entre si, Lux parecia se colocar na contramão. Não porque rejeite frontalmente o presente, mas porque desacelera. Enquanto os algoritmos das plataformas de streaming trabalham para nos entregar mais do mesmo, Rosalía insiste em outro ritmo. Não é exatamente uma novidade em sua trajetória, mas aqui isso se radicaliza.

De certa forma, Lux se organiza como uma peça sinfônica, dividido em quatro movimentos e temas sonoros principais: invocação espiritual, confronto e catarse, introspecção e aceitação. Pensado como uma jornada linear, e não como um conjunto de faixas isoladas, o álbum revela melhor suas conexões internas. É cantado em 14 idiomas, entre eles espanhol, catalão, latim, italiano, japonês, ucraniano, hebraico, português e francês, e conta com participações de artistas como Björk, Yves Tumor e Yahritza y Su Esencia.

Quando a escuta acabou, o jovem digeriu o álbum. Depois de um tempo, percebeu que ele cresce com o tempo, talvez justamente porque exige esse tempo. Algumas faixas o capturaram de imediato. Berghain, por exemplo, ele que fez questão de apresentar a uma amiga durante um dos jantares regulares. E ela amou.

A música, para ele, tem uma força operística e sinfônica que se impõe, sustentada por um coro quase celestial. Mio Cristo Piange Diamante é comovente de outra maneira, mais contida. E Magnolias, que encerra o disco, oferece uma aceitação serena da mortalidade, como se tudo desembocasse ali, numa espécie de paz.

Volta e meia o jovem ouve o álbum no Spotify. Ainda que não tenha tanto tempo, é sempre bom ver a artista que ele tanto gosta crescer. De repente, se toca que precisa fazer o estado da arte do seu TCC. Ele aposta que, assim como Rosalía, o seu trabalho o leve tão longe quanto levou a cantora. ⊛

Victor Souza

Logo cedo, uma notificação apareceu no celular. Entre o estágio, TCC e as mil tarefas que se acumulam na vida de um graduando, quase que o aviso passou batido. Por sorte, quando o jovem observou, não teve como desviar o olhar. Era o lançamento do novo álbum de Rosalía, o Lux.

As pressas para sair de casa rumo à faculdade, o estudante pegou seus fones com fio, os únicos com entrada compatível de seu IPhone 14, mas, por conta da rotina, não conseguiu ouvir o álbum. Precisou conter a ansiedade até à noite. Havia jantado na casa dos avós do namorado e, depois que voltou para casa, montou a atmosfera que ele achava perfeita.

Acendeu o abajur, de luz amarela, e ambos deram play. Fã da cantora, o jovem já conhecia o trabalho da artista espanhola. A cantora e multi-instrumentista deu o pontapé inicial de sua carreira com o álbum de regravações Los Ángeles (2017), mas foi no ano seguinte que alcançou a aclamação mundial com seu belíssimo El Mal Querer, fruto de seu trabalho de conclusão de curso.

Naquela época, ela já indicava que não estava disposta a seguir o fluxo: adaptou os 12 capítulos do livro Flamenca para um disco que soava como outra coisa dentro do pop latino, então saturado de fórmulas e repetições. Foi, de certa forma, um respiro.

Sentados no sofá, em frente à televisão, o casal encarou por 49 minutos Rosalía vestida como uma santa, presa em algo que lembra uma camisa de força. Em algum momento, me ocorreu um pensamento simples, quase incômodo: este disco exige de nós algo que já não sabemos oferecer com facilidade. Tempo e atenção.

Longe dos vídeos curtos do TikTok e das músicas que parecem cada vez mais parecidas entre si, Lux parecia se colocar na contramão. Não porque rejeite frontalmente o presente, mas porque desacelera. Enquanto os algoritmos das plataformas de streaming trabalham para nos entregar mais do mesmo, Rosalía insiste em outro ritmo. Não é exatamente uma novidade em sua trajetória, mas aqui isso se radicaliza.

De certa forma, Lux se organiza como uma peça sinfônica, dividido em quatro movimentos e temas sonoros principais: invocação espiritual, confronto e catarse, introspecção e aceitação. Pensado como uma jornada linear, e não como um conjunto de faixas isoladas, o álbum revela melhor suas conexões internas. É cantado em 14 idiomas, entre eles espanhol, catalão, latim, italiano, japonês, ucraniano, hebraico, português e francês, e conta com participações de artistas como Björk, Yves Tumor e Yahritza y Su Esencia.

Quando a escuta acabou, o jovem digeriu o álbum. Depois de um tempo, percebeu que ele cresce com o tempo, talvez justamente porque exige esse tempo. Algumas faixas o capturaram de imediato. Berghain, por exemplo, ele que fez questão de apresentar a uma amiga durante um dos jantares regulares. E ela amou.

A música, para ele, tem uma força operística e sinfônica que se impõe, sustentada por um coro quase celestial. Mio Cristo Piange Diamante é comovente de outra maneira, mais contida. E Magnolias, que encerra o disco, oferece uma aceitação serena da mortalidade, como se tudo desembocasse ali, numa espécie de paz.

Volta e meia o jovem ouve o álbum no Spotify. Ainda que não tenha tanto tempo, é sempre bom ver a artista que ele tanto gosta crescer. De repente, se toca que precisa fazer o estado da arte do seu TCC. Ele aposta que, assim como Rosalía, o seu trabalho o leve tão longe quanto levou a cantora. ⊛

Victor Souza

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