Era manhã de verão. O ano deveria ser algo entre 2013 e 2014. Cedo, eu e meu primo fomos acordados às pressas. Descobrimos um compromisso surpresa: era dia de vacinação no postinho perto de casa. Apesar de não lembrar qual era a vacina, recordo que minha preocupação se dividia em duas vertentes: “Será que verei o Zé Gotinha?” e “Será que vai ser agulha ou gotinha?”
Não contaram ao meu primo que iríamos nos vacinar. Ele tinha entre quatro e cinco anos, e eu, dez ou onze. O caminho até o postinho foi curto: saímos de carro em direção a uma rodovia próxima, atravessamos e, depois de dois minutos, estávamos esperando na fila, assim como dezenas de outras famílias.
Minha mãe sempre se orgulhou da minha carteira de vacinação. Quando esse assunto surgia nas rodas de conversa, ela dizia: “Ele tomou todas”. De fato, nunca me faltaram vacinas naquela época. Tomei as vacinas BCG, hepatite B, pentavalente, poliomielite, pneumocócica, meningocócica C, tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), tetra viral, DTP, hepatite A e HPV. Vejo minha carteira até hoje e me orgulho. Fui bem imunizado. Essa sorte nem todos têm hoje.
Chegou um ponto em que não conseguiram mais esconder. Meu primo descobriu que estava prestes a levar uma agulhada no braço. Como quase toda criança, partimos para um embate de coragem. Desafiei-o a não chorar, e ele fez o mesmo comigo. Quando chegou a hora, estávamos em um corredor do lado de fora de uma pequena sala bege, com uma grande janela pela qual o sol da manhã iluminava o lugar. Duas enfermeiras estavam lá: uma cuidando da documentação das crianças e outra esperando os porquinhos para o abate.
Chegou a nossa vez. Fui na frente. Sentei na cadeira e esperei. Eu vestia uma camiseta laranja de manga cavada. Encarei meu primo, que aguardava na porta ao lado da mãe dele. Quando senti a agulha, olhei no fundo da alma dele e fiz uma expressão de “Viu? Nem doeu”. Espero que ele não tenha percebido meus olhos mais úmidos do que o normal. Ainda que eu tenha demonstrado coragem, de nada isso adiantou. Ele fez um escarcéu na vez dele. Ganhei o desafio.
Essa foi a última vez de que me lembro de ver a empolgação — de um jeito bom — da família em relação às vacinas. Fui descobrir, muito tempo depois, que o país inteiro passava por uma mudança.
Pulemos para 20 de agosto de 2021. Poucos dias depois do meu aniversário, eu, então com 18 anos, vi uma notícia: os primeiros lotes da vacina contra a Covid-19 haviam sido liberados para pessoas da minha idade. Era por volta das nove da noite quando li o anúncio. Corri para o quarto da minha mãe e insisti para que ela me levasse ao ponto de vacinação mais próximo, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
Relutante, ela tentou me desmotivar. Diferentemente do passado, as vacinas deixaram de ser motivo de orgulho para ela. Consequência, talvez, do espírito bolsonarista que assolava o país durante a peste. Ainda assim, ganhei a disputa. Eram dias de frio congelante. Coloquei um casaco e uma calça de moletom, peguei um exemplar de Sherlock Holmes e fomos.
Quando cheguei ao local de vacinação, um clube recreativo, doze jovens mascarados já aguardavam na fila. Fiquei em 12º lugar. Minha mãe se despediu e voltou para casa para dormir. Eu passei a madrugada lá. Cheguei por volta das dez da noite e fui me vacinar às sete e meia da manhã. Durante a noite, encontrei alguns cantinhos para me deitar. Naquela altura, já havíamos recebido fichas que garantiam nossos lugares na fila.
Conheci algumas pessoas também. Em sua grande maioria, jovens que acreditavam na vacina. Não encontrei em ninguém, naquela noite, qualquer pensamento de aversão à imunização. Todos pensávamos de forma parecida. Foi reconfortante, em certo ponto, encontrar pessoas assim.
Desde o início da pandemia — ou melhor, do bolsonarismo — fiquei imerso em conversas de todo tipo. Na maioria das vezes, o discurso era o mesmo. Gosto de resumir com a frase: “Mas e o PT, hein?” Bem sabemos os efeitos daquele tempo nas famílias brasileiras.
Voltei para casa feliz na manhã do dia 21 de agosto. Estava cansado por não ter pregado os olhos durante a madrugada. Naquele mesmo dia, comecei a sentir os efeitos colaterais da vacina. “Relaxem, não virei jacaré”, eu brincava com quem me criticava. Senti calafrios e tive febre, mas nunca sequer recebi um diagnóstico de Covid.
Minha mãe se vacinou na época. Gostava de dizer que foi contra a própria vontade. Afirmava que só tomou a vacina porque precisava trabalhar. Ela também não virou jacaré. Minha avó materna demorou a tomar. Tinha plena convicção de que a vacina causava problemas cardíacos. Quando tomei minha primeira dose da Pfizer, ela me disse para consultar um cardiologista o quanto antes. Nunca precisei.
A vida não é mais como era em 2013 ou 2014. A trajetória da imunização no Brasil entre 2013 e 2026 revela um colapso histórico seguido por uma retomada ainda insuficiente. O país despencou de uma cobertura de excelência, de 98,9% em 2013, para os piores índices em décadas durante o biênio 2021–2022, quando diversos imunizantes ficaram abaixo dos 70%.
Segundo dados do Anuário VacinaBR 2025 e boletins do Ministério da Saúde, embora 2025 tenha registrado uma recuperação em 15 dos 16 imunizantes infantis, o cenário em 2026 permanece crítico, já que apenas as vacinas BCG (96,8%) e hepatite B (95,1%) atingiram a meta de 95% necessária para garantir a imunidade coletiva.
Aos 22 anos, não finjo mais coragem para tomar vacinas. A empolgação por ter acesso a elas me inunda. Volta e meia penso que, ainda que o cavaleiro do apocalipse esteja enclausurado, suas ideias continuam vivas na cabeça daqueles que o seguiam. Resta esperar para saber o futuro. Ah, e, é claro, precisamos de mais Zé Gotinhas. Ainda aguardo ansioso pelo nosso primeiro encontro. ⊛
Era manhã de verão. O ano deveria ser algo entre 2013 e 2014. Cedo, eu e meu primo fomos acordados às pressas. Descobrimos um compromisso surpresa: era dia de vacinação no postinho perto de casa. Apesar de não lembrar qual era a vacina, recordo que minha preocupação se dividia em duas vertentes: “Será que verei o Zé Gotinha?” e “Será que vai ser agulha ou gotinha?”
Não contaram ao meu primo que iríamos nos vacinar. Ele tinha entre quatro e cinco anos, e eu, dez ou onze. O caminho até o postinho foi curto: saímos de carro em direção a uma rodovia próxima, atravessamos e, depois de dois minutos, estávamos esperando na fila, assim como dezenas de outras famílias.
Minha mãe sempre se orgulhou da minha carteira de vacinação. Quando esse assunto surgia nas rodas de conversa, ela dizia: “Ele tomou todas”. De fato, nunca me faltaram vacinas naquela época. Tomei as vacinas BCG, hepatite B, pentavalente, poliomielite, pneumocócica, meningocócica C, tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), tetra viral, DTP, hepatite A e HPV. Vejo minha carteira até hoje e me orgulho. Fui bem imunizado. Essa sorte nem todos têm hoje.
Chegou um ponto em que não conseguiram mais esconder. Meu primo descobriu que estava prestes a levar uma agulhada no braço. Como quase toda criança, partimos para um embate de coragem. Desafiei-o a não chorar, e ele fez o mesmo comigo. Quando chegou a hora, estávamos em um corredor do lado de fora de uma pequena sala bege, com uma grande janela pela qual o sol da manhã iluminava o lugar. Duas enfermeiras estavam lá: uma cuidando da documentação das crianças e outra esperando os porquinhos para o abate.
Chegou a nossa vez. Fui na frente. Sentei na cadeira e esperei. Eu vestia uma camiseta laranja de manga cavada. Encarei meu primo, que aguardava na porta ao lado da mãe dele. Quando senti a agulha, olhei no fundo da alma dele e fiz uma expressão de “Viu? Nem doeu”. Espero que ele não tenha percebido meus olhos mais úmidos do que o normal. Ainda que eu tenha demonstrado coragem, de nada isso adiantou. Ele fez um escarcéu na vez dele. Ganhei o desafio.
Essa foi a última vez de que me lembro de ver a empolgação — de um jeito bom — da família em relação às vacinas. Fui descobrir, muito tempo depois, que o país inteiro passava por uma mudança.
Pulemos para 20 de agosto de 2021. Poucos dias depois do meu aniversário, eu, então com 18 anos, vi uma notícia: os primeiros lotes da vacina contra a Covid-19 haviam sido liberados para pessoas da minha idade. Era por volta das nove da noite quando li o anúncio. Corri para o quarto da minha mãe e insisti para que ela me levasse ao ponto de vacinação mais próximo, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
Relutante, ela tentou me desmotivar. Diferentemente do passado, as vacinas deixaram de ser motivo de orgulho para ela. Consequência, talvez, do espírito bolsonarista que assolava o país durante a peste. Ainda assim, ganhei a disputa. Eram dias de frio congelante. Coloquei um casaco e uma calça de moletom, peguei um exemplar de Sherlock Holmes e fomos.
Quando cheguei ao local de vacinação, um clube recreativo, doze jovens mascarados já aguardavam na fila. Fiquei em 12º lugar. Minha mãe se despediu e voltou para casa para dormir. Eu passei a madrugada lá. Cheguei por volta das dez da noite e fui me vacinar às sete e meia da manhã. Durante a noite, encontrei alguns cantinhos para me deitar. Naquela altura, já havíamos recebido fichas que garantiam nossos lugares na fila.
Conheci algumas pessoas também. Em sua grande maioria, jovens que acreditavam na vacina. Não encontrei em ninguém, naquela noite, qualquer pensamento de aversão à imunização. Todos pensávamos de forma parecida. Foi reconfortante, em certo ponto, encontrar pessoas assim.
Desde o início da pandemia — ou melhor, do bolsonarismo — fiquei imerso em conversas de todo tipo. Na maioria das vezes, o discurso era o mesmo. Gosto de resumir com a frase: “Mas e o PT, hein?” Bem sabemos os efeitos daquele tempo nas famílias brasileiras.
Voltei para casa feliz na manhã do dia 21 de agosto. Estava cansado por não ter pregado os olhos durante a madrugada. Naquele mesmo dia, comecei a sentir os efeitos colaterais da vacina. “Relaxem, não virei jacaré”, eu brincava com quem me criticava. Senti calafrios e tive febre, mas nunca sequer recebi um diagnóstico de Covid.
Minha mãe se vacinou na época. Gostava de dizer que foi contra a própria vontade. Afirmava que só tomou a vacina porque precisava trabalhar. Ela também não virou jacaré. Minha avó materna demorou a tomar. Tinha plena convicção de que a vacina causava problemas cardíacos. Quando tomei minha primeira dose da Pfizer, ela me disse para consultar um cardiologista o quanto antes. Nunca precisei.
A vida não é mais como era em 2013 ou 2014. A trajetória da imunização no Brasil entre 2013 e 2026 revela um colapso histórico seguido por uma retomada ainda insuficiente. O país despencou de uma cobertura de excelência, de 98,9% em 2013, para os piores índices em décadas durante o biênio 2021–2022, quando diversos imunizantes ficaram abaixo dos 70%.
Segundo dados do Anuário VacinaBR 2025 e boletins do Ministério da Saúde, embora 2025 tenha registrado uma recuperação em 15 dos 16 imunizantes infantis, o cenário em 2026 permanece crítico, já que apenas as vacinas BCG (96,8%) e hepatite B (95,1%) atingiram a meta de 95% necessária para garantir a imunidade coletiva.
Aos 22 anos, não finjo mais coragem para tomar vacinas. A empolgação por ter acesso a elas me inunda. Volta e meia penso que, ainda que o cavaleiro do apocalipse esteja enclausurado, suas ideias continuam vivas na cabeça daqueles que o seguiam. Resta esperar para saber o futuro. Ah, e, é claro, precisamos de mais Zé Gotinhas. Ainda aguardo ansioso pelo nosso primeiro encontro. ⊛