Quase todo mundo que frequenta a casa dos avós desde que se conhece por gente, guarda algo que, uma vez ou outra, repara minuciosamente. No meu caso, algo que sempre me chamou a atenção era a grande quantidade de pinturas espalhadas pela casa. Mas não se engane, não são obras da Tarsila, Portinari ou Cavalcanti. Muitas delas são assinadas pela minha avó, Eleda, que escreve o nome junto ao ano que pintou os quadros. Quase todos datam do início dos anos 2000.
A casa onde estão é grande. Fica na praia do Laranjal, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Atualmente, quem mora lá é meu pai, Antônio. Minha avó morou fixamente naquela casa até as enchentes que assolaram o estado em 2024. Com as chuvas, o bairro do Laranjal foi um dos mais afetados em Pelotas. Na época, minha tia, Fernanda, morava com ela. As duas passaram a viver juntas desde a morte do meu avô, também chamado Antônio, em 2020.
Por conta do medo de que uma nova enxurrada viesse, as duas se mudaram para um apartamento na parte metropolitana da cidade. Ainda que tenham saído, Eleda insiste em visitar. “A casa da praia sempre vai ser a casa da família, não consigo sair de lá”, ela me diz.
Funcionária pública aposentada, minha avó possui alguns hobbies semanais que segue religiosamente. Toda segunda-feira ela cozinha feijão. Nas manhãs de terça, costuma perambular por feiras no centro da cidade e, nos finais de semana, volta para a casa no Laranjal.
Tão cheia de memórias e boas recordações, hoje as paredes da casa não tem mais espaço para as pinturas que eu tanto apreciava. Perguntei a minha avó por que há tanto tempo não via ela pintar. Respondeu que “não tem mais parede para pendurar” e “nenhum dos meus filhos gosta do estilo de quadros que eu faço”.
Fiquei indignado. São quadros lindos, que alternam-se entre paisagens, flores, cavalos e até mesmo Nossa Senhora tomando chimarrão. Até minha mãe, Silvana, que não é mais casada com meu pai, possui um quadro pintado pela minha avó pendurado em casa, na cidade Santa Maria.
“O último quadro que eu pintei foi em 2022″, diz Eleda. “Estava chateada por conta da perda do teu avô e pintei uma planta Copo-de-leite”. Sem dúvida, sua musa inspiradora são as paisagens, algo que sempre me indagou. Nunca consegui, ao menos com meus conhecimentos geográficos, identificá-las. Nenhuma sequer representava lugares de Pelotas que eu reconhecesse.
Foi uma surpresa quando contou a mim que sua fonte criativa vinha do calendário anual que recebe da Associação dos Pintores com a Boca e os Pés. “Tem cada coisa linda, fico encantada”. Curioso, perguntei de onde havia vindo a inspiração para a Nossa Senhora tomando chimarrão, que com certeza não estava no calendário. “Um padre me deu a gravura de Nossa Senhora do chimarrão. Pintei várias Nossas Senhoras para todo mundo”.
Desde 2024, moro sozinho em Pelotas por conta da faculdade. Sempre que pude, perguntava para ela sobre os quadros e o porquê ela não pintava mais. Quando respondia que seus filhos não gostavam do tipo de pintura que ela faz, eu falava: “Eu gosto vó, não se preocupa”. Tentava dar a entender que também queria um quadro. Esse ano, ela entendeu o que eu estava querendo dizer.
Há algumas semanas, minha avó tem levado várias sacolas da casa no Laranjal ao apartamento do centro. “Eu e a Fer estamos fazendo um ateliê”. Apesar de ser um apartamento reformado, ele possui estrutura antiga, assim como quase todos os prédios do centro de Pelotas. Nele, uma peça continua vazia, mesmo dois anos após a mudança.
É a antiga “dependência de serviço” ou “quarto de empregada”. Um grande corredor com um lavabo e uma peça pequena. “Deixei vazia para fazer um quarto para o meu filho, vai que ele voltasse pra casa”, disse Fernanda. Como se quisesse responder a essa dúvida, minha tia assoprou: “até parece”. “Aí a gente vai fazer um ateliê, eu volto a pintar os quadros e a Fer pinta coisinhas de madeira que ela gosta”, comentou minha avó, enquanto me mostrava o cômodo ainda vazio, ocupado apenas pelas sacolas que trouxe.
Depois, Eleda me deu dois de seus calendários. “Escolhe algum desenho que tu goste e me diz que eu faço.” Com quase 30 anos de experiência, a pintora ainda me lembrou: “só me fala depois o tamanho que tu quer para eu comprar a tela”. ⊛
Quase todo mundo que frequenta a casa dos avós desde que se conhece por gente, guarda algo que, uma vez ou outra, repara minuciosamente. No meu caso, algo que sempre me chamou a atenção era a grande quantidade de pinturas espalhadas pela casa. Mas não se engane, não são obras da Tarsila, Portinari ou Cavalcanti. Muitas delas são assinadas pela minha avó, Eleda, que escreve o nome junto ao ano que pintou os quadros. Quase todos datam do início dos anos 2000.
A casa onde estão é grande. Fica na praia do Laranjal, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Atualmente, quem mora lá é meu pai, Antônio. Minha avó morou fixamente naquela casa até as enchentes que assolaram o estado em 2024. Com as chuvas, o bairro do Laranjal foi um dos mais afetados em Pelotas. Na época, minha tia, Fernanda, morava com ela. As duas passaram a viver juntas desde a morte do meu avô, também chamado Antônio, em 2020.
Por conta do medo de que uma nova enxurrada viesse, as duas se mudaram para um apartamento na parte metropolitana da cidade. Ainda que tenham saído, Eleda insiste em visitar. “A casa da praia sempre vai ser a casa da família, não consigo sair de lá”, ela me diz.
Funcionária pública aposentada, minha avó possui alguns hobbies semanais que segue religiosamente. Toda segunda-feira ela cozinha feijão. Nas manhãs de terça, costuma perambular por feiras no centro da cidade e, nos finais de semana, volta para a casa no Laranjal.
Tão cheia de memórias e boas recordações, hoje as paredes da casa não tem mais espaço para as pinturas que eu tanto apreciava. Perguntei a minha avó por que há tanto tempo não via ela pintar. Respondeu que “não tem mais parede para pendurar” e “nenhum dos meus filhos gosta do estilo de quadros que eu faço”.
Fiquei indignado. São quadros lindos, que alternam-se entre paisagens, flores, cavalos e até mesmo Nossa Senhora tomando chimarrão. Até minha mãe, Silvana, que não é mais casada com meu pai, possui um quadro pintado pela minha avó pendurado em casa, na cidade Santa Maria.
“O último quadro que eu pintei foi em 2022″, diz Eleda. “Estava chateada por conta da perda do teu avô e pintei uma planta Copo-de-leite”. Sem dúvida, sua musa inspiradora são as paisagens, algo que sempre me indagou. Nunca consegui, ao menos com meus conhecimentos geográficos, identificá-las. Nenhuma sequer representava lugares de Pelotas que eu reconhecesse.
Foi uma surpresa quando contou a mim que sua fonte criativa vinha do calendário anual que recebe da Associação dos Pintores com a Boca e os Pés. “Tem cada coisa linda, fico encantada”. Curioso, perguntei de onde havia vindo a inspiração para a Nossa Senhora tomando chimarrão, que com certeza não estava no calendário. “Um padre me deu a gravura de Nossa Senhora do chimarrão. Pintei várias Nossas Senhoras para todo mundo”.
Desde 2024, moro sozinho em Pelotas por conta da faculdade. Sempre que pude, perguntava para ela sobre os quadros e o porquê ela não pintava mais. Quando respondia que seus filhos não gostavam do tipo de pintura que ela faz, eu falava: “Eu gosto vó, não se preocupa”. Tentava dar a entender que também queria um quadro. Esse ano, ela entendeu o que eu estava querendo dizer.
Há algumas semanas, minha avó tem levado várias sacolas da casa no Laranjal ao apartamento do centro. “Eu e a Fer estamos fazendo um ateliê”. Apesar de ser um apartamento reformado, ele possui estrutura antiga, assim como quase todos os prédios do centro de Pelotas. Nele, uma peça continua vazia, mesmo dois anos após a mudança.
É a antiga “dependência de serviço” ou “quarto de empregada”. Um grande corredor com um lavabo e uma peça pequena. “Deixei vazia para fazer um quarto para o meu filho, vai que ele voltasse pra casa”, disse Fernanda. Como se quisesse responder a essa dúvida, minha tia assoprou: “até parece”. “Aí a gente vai fazer um ateliê, eu volto a pintar os quadros e a Fer pinta coisinhas de madeira que ela gosta”, comentou minha avó, enquanto me mostrava o cômodo ainda vazio, ocupado apenas pelas sacolas que trouxe.
Depois, Eleda me deu dois de seus calendários. “Escolhe algum desenho que tu goste e me diz que eu faço.” Com quase 30 anos de experiência, a pintora ainda me lembrou: “só me fala depois o tamanho que tu quer para eu comprar a tela”. ⊛