Férias prolongadas

Férias prolongadas

Adiar a vida pode ser uma forma de viver

6–9 minutos
Férias prolongadas

Férias prolongadas

Adiar a vida pode ser uma forma de viver

6–9 minutos
Férias prolongadas

Férias prolongadas

Adiar a vida pode ser uma forma de viver

6–9 minutos
Férias prolongadas

Férias prolongadas

Adiar a vida pode ser uma forma de viver

6–9 minutos

Quando a novela japonesa “Long Vacation” entrou para a Netflix em abril, eu convoquei todos os meus amigos para assistir a esse dorama o quanto antes. Alguns, obviamente, desconversaram. Uma querida amiga, no entanto, já vai para a sua terceira vez assistindo ao dorama só neste ano – assim como eu, ela já tinha se sujeitado a procurar essa obra nos bueiros da internet.

Eu sou fascinado por essa novela desde que assisti pela primeira vez lá nos idos de 2021, hoje, um tão longínquo ano pandêmico . Apesar de eu só ter descoberto a obra naquele ano, Longback, como os japoneses apelidaram o dorama, foi ao ar no Japão há mais de 30 anos. E, bem, no quesito novela, os japoneses não são exatamente as maiores referências em distribuição internacional ou uso estratégico como ferramenta de soft power – nesse último caso, talvez a gente é que dê o nome de fato.

O dorama chegou à Netflix um dia antes do seu 30º aniversário. Bem a tempo, eu diria. Os vídeos dos capítulos em qualidade sofrida já tinham sido removidos do YouTube, onde eu consegui assistir durante a quarentena. Corria o risco de virar lost media muito em breve, e isso era tudo o que muita gente, incluindo eu, não queria que acontecesse. Vários artigos acadêmicos citam esse dorama como um dos precursores do próprio gênero no Japão, um abre-alas que revolucionou a forma como os japoneses assistem a narrativas seriadas até hoje. Ponto para a Netflix, vamos combinar.

Nada mais justo que uma obra de suma importância começasse de maneira icônica. Logo na primeira cena, uma mulher vestindo uma indumentária tradicional de noiva japonesa aparece correndo pelas ruas de Tóquio, desesperada e esbaforida, até chegar a um prédio onde seu noivo supostamente mora. É o dia do casamento deles, e o noivo ainda não tinha dado as caras. Obviamente, ela tinha que ir lá conferir o que tinha acontecido, né?

O apartamento no terceiro andar do prédio era coabitado por um estudante recém-formado em música, que a recebe no calor do momento e das emoções para uma surpresa um tanto quanto esperada: o noivo desapareceu sem deixar rastros. Tinha se apaixonado por outra mulher, mais nova, e decidiu fugir no dia do compromisso. Uma incrédula Minami, a noiva deixada no altar, interpretada brilhantemente por Yamaguchi Tomoko, hoje com 61 anos, se apresenta em cena incapaz de reagir às palavras que Sena, o estudante de música vivido por Kimura Takuya, hoje com 53 anos, pronuncia enquanto lê a carta deixada pelo dito cujo antes de fugir da realidade.

Uma fuga da realidade. Essa é talvez a melhor definição para a situação em que essas duas pessoas se encontram. Ela, uma modelo desempregada de 30 anos abandonada no altar. Ele, um estudante de música recém-formado sem grandes aspirações profissionais, tenta encontrar motivos para continuar tocando piano. Tudo isso em pleno Japão dos anos 1990, quebrado por uma crise econômica sem precedentes. Minami já tinha acertado tudo para viver sua belíssima vida como esposa e, de repente, se viu morando no mesmo apartamento que seu ex-noivo, dividindo as contas e as lamúrias com um homem mais novo e um tanto quanto sem noção da realidade.

Em um dado episódio, Minami define a sua situação vigente como a de “férias prolongadas”. Ela ainda faz alguns bicos de modelo enquanto procura um emprego fixo e tenta seguir em frente depois do trauma que a colocou nesse estado. Por seguir em frente, ela tenta deixar o que passou para trás vivendo um dia de cada vez. Soa bem peculiar, não é mesmo? Para alguém que tinha um vislumbre de como seria sua vida, ver essa imagem se despedaçar diante de si deve ser, no mínimo, dilacerante. A pior parte é, com certeza, ter que juntar os pedaços no chão, porque não convém manter a casa suja até o caminhão do lixo passar de novo.

É interessante pensar que a gente geralmente só tem tempo de limpar ou reformar a casa nos dias de folga ou nas férias. Talvez as “férias prolongadas” às quais Minami se refere tenham um pouco disso: essa necessidade de ajeitar tudo nos dias de ócio para que os dias de trabalho sejam mais confortáveis. Uma antecipação de que “vai ser melhor depois” ou “confia no processo”. Como se isso fosse sanar certos incômodos causados pela vida, quando, no máximo, os adia.

Adiar a vida: essa é uma sensação até mais dilacerante do que a de ver a vida sendo destruída. Porque você se vê parado, em uma encruzilhada, sem saber para onde seguir, mas certo de que precisa continuar seguindo. É desesperador. Em dado momento da caminhada, você já sabe até onde esse caminho vai dar e, ainda assim, precisa segui-lo, pois foi o que restou. Minami sabe exatamente o que acontece com ela de agora em diante: sem noivo, sem emprego e sem idade para continuar trabalhando. Mas decide que é preciso adiar isso. Ou melhor, que está de férias até que essa parte da sua vida recomece. Férias prolongadas, diga-se de passagem.

Já Sena, por outro lado, nem faz ideia de qual caminho vai seguir nessa encruzilhada. Ele gosta de uma colega de faculdade mais nova, mas como chegar a essa menina que nem dá bola para ele? Ele quer ser um pianista reconhecido, mas o professor diz que ele ainda não consegue se colocar nas músicas que toca. Como então? Ele sabe que já está adiando a vida, mas não sabe como parar nem quando parar de fazer isso: quando voltar das férias prolongadas para o mundo real. Foi do encontro dessas duas personagens que surgiu um dos seriados mais assistidos da história da televisão japonesa e que, 30 anos depois, ainda é capaz de te viciar do mesmo jeito.

O grande impacto de “Long Vacation” em mim e na minha amiga do começo deste texto não é por acaso. Esse dorama nos afeta de maneira muito particular no momento da vida em que estamos. Em breve, faço um ano de formado, pulando entre freelas e cursos aleatórios, ansiando por um mestrado. Tudo isso depois de uma negativa colossal em uma oportunidade que vislumbrei por anos. Já a minha amiga se encontra no olho do furacão em meio a um TCC, uma greve, um projeto de mestrado e o término nada saudável de um relacionamento que durou mais do que deveria.

Ambos estamos tentando fugir um pouco da realidade em férias prolongadas, talvez até há mais tempo do que tenhamos percebido. Conversando com essa amiga, me perguntei se já não poderíamos considerar essas férias prolongadas como uma forma de viver. Todo dia adiamos alguma coisa que parece inevitável, não é mesmo? E nem por isso deixamos de estar vivos. Gosto de pensar como a vida é também uma caminhada já percorrida por outras pessoas. Ou seja, o mesmo caminho que trilhamos também será seguido por outros. É talvez aí que more o cerne da questão: e se esse for o caminho errado?

Por isso, Minami chama a sua situação de férias prolongadas. Não há erro a ser cometido quando se está de férias. Nenhum chefe vai te cobrar por atrasos, muito menos você vai precisar organizar uma rotina super-regrada para atingir metas e interagir com um time. Porque você está de férias. Tudo é puramente experiência, brincadeira, diversão, paixão, desejo e possibilidade. Tudo é possível quando se está de férias, até mesmo prolongá-las indefinidamente até que se tenha certeza de qual caminho seguir. Mas, paradoxalmente, não se permanece estático nas férias. A caminhada continua, com um outro olhar. Quase como se o caminho tivesse menos pedregulhos e mais flores. É quase uma forma de viver: fazer-se presente e, assim, desfrutar das coisas que a vida te oferece. Como se estivesse de férias.

Com a minha amiga, cheguei à conclusão de que “adiar a vida” pode ser também uma forma de viver. Pelo menos por enquanto. Porque nós estamos em férias prolongadas, tentando entender para onde é que essa caminhada vai nos levar em meio a essa crise política, econômica, social, moral, ambiental e global que assola as nossas vidas. Minami e Sena viram as férias prolongadas deles chegarem ao fim. Não porque eles pararam de fugir da realidade. Eles só encontraram uma maneira de viver que fez da vida um prolongamento das férias. Talvez seja exatamente isso que eu e minha amiga procuramos agora: férias prolongadas pelo resto da vida. ⊛

Quando a novela japonesa “Long Vacation” entrou para a Netflix em abril, eu convoquei todos os meus amigos para assistir a esse dorama o quanto antes. Alguns, obviamente, desconversaram. Uma querida amiga, no entanto, já vai para a sua terceira vez assistindo ao dorama só neste ano – assim como eu, ela já tinha se sujeitado a procurar essa obra nos bueiros da internet.

Eu sou fascinado por essa novela desde que assisti pela primeira vez lá nos idos de 2021, hoje, um tão longínquo ano pandêmico . Apesar de eu só ter descoberto a obra naquele ano, Longback, como os japoneses apelidaram o dorama, foi ao ar no Japão há mais de 30 anos. E, bem, no quesito novela, os japoneses não são exatamente as maiores referências em distribuição internacional ou uso estratégico como ferramenta de soft power – nesse último caso, talvez a gente é que dê o nome de fato.

O dorama chegou à Netflix um dia antes do seu 30º aniversário. Bem a tempo, eu diria. Os vídeos dos capítulos em qualidade sofrida já tinham sido removidos do YouTube, onde eu consegui assistir durante a quarentena. Corria o risco de virar lost media muito em breve, e isso era tudo o que muita gente, incluindo eu, não queria que acontecesse. Vários artigos acadêmicos citam esse dorama como um dos precursores do próprio gênero no Japão, um abre-alas que revolucionou a forma como os japoneses assistem a narrativas seriadas até hoje. Ponto para a Netflix, vamos combinar.

Nada mais justo que uma obra de suma importância começasse de maneira icônica. Logo na primeira cena, uma mulher vestindo uma indumentária tradicional de noiva japonesa aparece correndo pelas ruas de Tóquio, desesperada e esbaforida, até chegar a um prédio onde seu noivo supostamente mora. É o dia do casamento deles, e o noivo ainda não tinha dado as caras. Obviamente, ela tinha que ir lá conferir o que tinha acontecido, né?

O apartamento no terceiro andar do prédio era coabitado por um estudante recém-formado em música, que a recebe no calor do momento e das emoções para uma surpresa um tanto quanto esperada: o noivo desapareceu sem deixar rastros. Tinha se apaixonado por outra mulher, mais nova, e decidiu fugir no dia do compromisso. Uma incrédula Minami, a noiva deixada no altar, interpretada brilhantemente por Yamaguchi Tomoko, hoje com 61 anos, se apresenta em cena incapaz de reagir às palavras que Sena, o estudante de música vivido por Kimura Takuya, hoje com 53 anos, pronuncia enquanto lê a carta deixada pelo dito cujo antes de fugir da realidade.

Uma fuga da realidade. Essa é talvez a melhor definição para a situação em que essas duas pessoas se encontram. Ela, uma modelo desempregada de 30 anos abandonada no altar. Ele, um estudante de música recém-formado sem grandes aspirações profissionais, tenta encontrar motivos para continuar tocando piano. Tudo isso em pleno Japão dos anos 1990, quebrado por uma crise econômica sem precedentes. Minami já tinha acertado tudo para viver sua belíssima vida como esposa e, de repente, se viu morando no mesmo apartamento que seu ex-noivo, dividindo as contas e as lamúrias com um homem mais novo e um tanto quanto sem noção da realidade.

Em um dado episódio, Minami define a sua situação vigente como a de “férias prolongadas”. Ela ainda faz alguns bicos de modelo enquanto procura um emprego fixo e tenta seguir em frente depois do trauma que a colocou nesse estado. Por seguir em frente, ela tenta deixar o que passou para trás vivendo um dia de cada vez. Soa bem peculiar, não é mesmo? Para alguém que tinha um vislumbre de como seria sua vida, ver essa imagem se despedaçar diante de si deve ser, no mínimo, dilacerante. A pior parte é, com certeza, ter que juntar os pedaços no chão, porque não convém manter a casa suja até o caminhão do lixo passar de novo.

É interessante pensar que a gente geralmente só tem tempo de limpar ou reformar a casa nos dias de folga ou nas férias. Talvez as “férias prolongadas” às quais Minami se refere tenham um pouco disso: essa necessidade de ajeitar tudo nos dias de ócio para que os dias de trabalho sejam mais confortáveis. Uma antecipação de que “vai ser melhor depois” ou “confia no processo”. Como se isso fosse sanar certos incômodos causados pela vida, quando, no máximo, os adia.

Adiar a vida: essa é uma sensação até mais dilacerante do que a de ver a vida sendo destruída. Porque você se vê parado, em uma encruzilhada, sem saber para onde seguir, mas certo de que precisa continuar seguindo. É desesperador. Em dado momento da caminhada, você já sabe até onde esse caminho vai dar e, ainda assim, precisa segui-lo, pois foi o que restou. Minami sabe exatamente o que acontece com ela de agora em diante: sem noivo, sem emprego e sem idade para continuar trabalhando. Mas decide que é preciso adiar isso. Ou melhor, que está de férias até que essa parte da sua vida recomece. Férias prolongadas, diga-se de passagem.

Já Sena, por outro lado, nem faz ideia de qual caminho vai seguir nessa encruzilhada. Ele gosta de uma colega de faculdade mais nova, mas como chegar a essa menina que nem dá bola para ele? Ele quer ser um pianista reconhecido, mas o professor diz que ele ainda não consegue se colocar nas músicas que toca. Como então? Ele sabe que já está adiando a vida, mas não sabe como parar nem quando parar de fazer isso: quando voltar das férias prolongadas para o mundo real. Foi do encontro dessas duas personagens que surgiu um dos seriados mais assistidos da história da televisão japonesa e que, 30 anos depois, ainda é capaz de te viciar do mesmo jeito.

O grande impacto de “Long Vacation” em mim e na minha amiga do começo deste texto não é por acaso. Esse dorama nos afeta de maneira muito particular no momento da vida em que estamos. Em breve, faço um ano de formado, pulando entre freelas e cursos aleatórios, ansiando por um mestrado. Tudo isso depois de uma negativa colossal em uma oportunidade que vislumbrei por anos. Já a minha amiga se encontra no olho do furacão em meio a um TCC, uma greve, um projeto de mestrado e o término nada saudável de um relacionamento que durou mais do que deveria.

Ambos estamos tentando fugir um pouco da realidade em férias prolongadas, talvez até há mais tempo do que tenhamos percebido. Conversando com essa amiga, me perguntei se já não poderíamos considerar essas férias prolongadas como uma forma de viver. Todo dia adiamos alguma coisa que parece inevitável, não é mesmo? E nem por isso deixamos de estar vivos. Gosto de pensar como a vida é também uma caminhada já percorrida por outras pessoas. Ou seja, o mesmo caminho que trilhamos também será seguido por outros. É talvez aí que more o cerne da questão: e se esse for o caminho errado?

Por isso, Minami chama a sua situação de férias prolongadas. Não há erro a ser cometido quando se está de férias. Nenhum chefe vai te cobrar por atrasos, muito menos você vai precisar organizar uma rotina super-regrada para atingir metas e interagir com um time. Porque você está de férias. Tudo é puramente experiência, brincadeira, diversão, paixão, desejo e possibilidade. Tudo é possível quando se está de férias, até mesmo prolongá-las indefinidamente até que se tenha certeza de qual caminho seguir. Mas, paradoxalmente, não se permanece estático nas férias. A caminhada continua, com um outro olhar. Quase como se o caminho tivesse menos pedregulhos e mais flores. É quase uma forma de viver: fazer-se presente e, assim, desfrutar das coisas que a vida te oferece. Como se estivesse de férias.

Com a minha amiga, cheguei à conclusão de que “adiar a vida” pode ser também uma forma de viver. Pelo menos por enquanto. Porque nós estamos em férias prolongadas, tentando entender para onde é que essa caminhada vai nos levar em meio a essa crise política, econômica, social, moral, ambiental e global que assola as nossas vidas. Minami e Sena viram as férias prolongadas deles chegarem ao fim. Não porque eles pararam de fugir da realidade. Eles só encontraram uma maneira de viver que fez da vida um prolongamento das férias. Talvez seja exatamente isso que eu e minha amiga procuramos agora: férias prolongadas pelo resto da vida. ⊛

leia também

pêqui

Descubra mais sobre pêqui

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading